Terminologia médica. É assim tão complexo como parece?

Terminologia médica. É assim tão complexo como parece?

Em algum momento da vida, já todos tivemos dificuldade em pronunciar palavras de rótulos ou de bulas. Por isso, a resposta imediata ao título deste artigo seria: sim, é. No entanto, um profissional de línguas experiente na área médica tem no seu vocabulário palavras como ácido acetilsalicílico.

Sabia que «raio-X» e «raio X» têm significados diferentes? Raio-X é a fotografia que é criada a partir de um exame feito por meio de raio X. Ou seja, raio-X é o resultado e raio X é a radiação eletromagnética ou «raio Roentgen». Estes pequenos pormenores são uma preocupação constante no mundo da tradução.

Traduzir uma bula de um medicamento, por exemplo, é extremamente complexo. O mais pequeno erro pode levar um doente a tomar uma dose (posologia) errada ou não se aperceber de alguma reação adversa ao medicamento. O setor requer muita precisão na linguagem.

Imagine que tinha de traduzir dimethylamidophenyldimethylpyrazolone para português? Conheça alguns dos desafios com que um tradutor se depara quando trabalha neste setor.

Siglas, acrónimos e abreviaturas

A linguagem médica tem uma grande variedade de siglas, acrónimos e abreviaturas, o que torna o processo de tradução ainda mais complexo. De uma língua para outra pode variar a ordem das palavras ou até mesmo ser sigla numa língua e noutra não. Observe os seguintes exemplos:

InglêsPortuguês
CT (Computed Tomography)
TAC (Tomografia Axial Computorizada)
COPD (Chronic Obstructive Pulmonary Disease)DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica)
AIDS (Acquired Immunodeficiency Syndrome)SIDA (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida)
ABG (arterial blood gas)
Gasometria arterial

Sufixos e prefixos

As diferenças da sufixação e prefixação em diferentes línguas geram diferenças na distribuição semântica das palavras. Na tradução, podem aparecer sufixos ou prefixos “novos” ou desaparecem os existentes, o que torna o processo ainda mais complexo.

Por exemplo:

  • Em português utiliza-se o prefixo -hepato para designar alguma coisa qua tenha a ver com o fígado, como insuficiência hepática. Em inglês usa-se apenas a palavra liver (tradução literal de fígado) em vez de prefixo, o que resulta em liver failure;
  • Em inglês utiliza-se o sufixo -ache para designar dor de alguma coisa, ou seja, a expressão portuguesa ‘dor de cabeça’ traduzir-se-ia para headache em inglês; entre outros.

Nome vs. adjetivo

O nome e o adjetivo do mesmo conceito, por vezes, não são semelhantes – como no caso de beleza e belo. Este é um desafio que o tradutor deve ter em atenção quando está a traduzir um documento mais técnico. Só a experiência trará o rigor necessário. Veja os seguintes exemplos:

NomeAdjetivo
Olho (eye)Nervo ótico (optic nerve)
Ouvido (ear)Canal auditivo (auditory canal)
Boca (mouth)Cavidade oral (oral cavity)

Polissemia e sinónimos

O sonho de qualquer tradutor é que todos os termos técnicos fossem unívocos, isto é, que um conceito tivesse apenas uma designação e que essa designação servisse apenas para esse conceito. No entanto, tal não acontece. A palavra “infundíbulo” tem quatro significados: 1. Estrutura em forma de funil; 2. Divisão da pelve renal; 3. Cavidade do pavilhão da tuba auditiva; e 4. Cavidade da extremidade superior do canal coclear. Em inglês, a palavra “infundibulum” tem os mesmos significados, mas acrescenta ainda mais um: bronquíolo respiratório (em português). Estes pormenores são mais comuns de encontrar na parte de investigação, onde é utilizada, regra geral, uma linguagem mais técnica.

Epónimos

Os epónimos são uma grande porção da terminologia médica. Nesta fatia, estão incluídos os nomes anatómicos, nomes de doenças, sintomas, sinais, procedimentos e nomes de equipamentos médicos. Os epónimos são frequentemente derivados de nomes de investigadores, de doentes ou até mesmo de personagens fictícias ou localizações geográficas. A correspondência destes termos nem sempre resulta em epónimos e é importante ter isto em mente quando se traduz este tipo de documento, pois traduções literais podem induzir em erro. O contrário também acontece, um termo que em português seja epónimo, mas em inglês não. Por exemplo, Adam’s apple resulta no epónimo «maçã de Adão», já «Terapia de Vojta» em português não resulta em epónimo em inglês, sendo a correspondência reflexlocomotion.

Termos médicos para não especialistas

Já alguma vez leu o resultado de um exame médico e não percebeu absolutamente nada do que estava lá escrito? A linguagem médica para “não-médicos” constitui uma grande parte da comunicação do ramo. Muitas das vezes, os documentos médicos estão escritos numa linguagem que é demasiado complexa e pouco acessível para o leitor comum. Um tradutor deve adaptar sempre a linguagem ao público-alvo do documento. Isto significa que deverá tomar decisões como: utilizar o termo «comichão» em vez de prurido, «nódoa negra» em vez de «hematoma», etc.

Inovação constante

Um dos grandes desafios são os termos novos que aparecem associados a inovações médicas. Em certos artigos, são discutidas inovações da medicina para as quais ainda não há termos em português. Ou se os há, eles não aparecem na Internet. Nestes casos, é comum o tradutor utilizar uma forma portuguesa aproximada, caso já exista um termo semelhante, ou manter o termo em inglês.

Nos casos em que não há um termo português para o termo inglês, a solução pode passar também por usar uma expressão mais descritiva em português, indicando sempre o termo inglês para maior esclarecimento.