Qual é a sua verdadeira língua materna?

Qual é a sua verdadeira língua materna?

Com o passar do tempo, deixámos de dar valor às palavras e à linguagem. A diminuição da taxa de analfabetismo tornou comum o ato da escrita, que passou a ser um hábito ao invés de uma arte.

Os membros de uma comunidade partilham factos, experiências e ideias através da linguagem que têm em comum. Ler, escrever, falar ao telefone ou até mesmo interpretar um gráfico, todos os aspetos verbais e não verbais de uma linguagem corporizam a cultura de um grupo social. Mais ainda, a linguagem não é apenas utilizada para transmitir experiências, mas para as criar também. Podemos então afirmar que um idioma expressa e simboliza uma realidade cultural.

Hoje existem mais de 6 mil idiomas diferentes no mundo e a diversidade no vocabulário, na gramática e, até mesmo, no som é infinita. Existem línguas com apenas 11 sons distintos e outras com 118! Esta diversidade demonstra a plasticidade do cérebro humano e a sua capacidade para a comunicação. No entanto, já muito se perdeu neste aspeto e os especialistas estimam que, até ao fim do século, 50% dos idiomas que conhecemos hoje estarão extintos. O The Wall Street Journal lançou, em 2015, um artigo polémico no qual afirmou que em 2115 90% das línguas já terá desaparecido.

Antes

Os primeiros vestígios de comunicação oral de que se tem conhecimento surgiram há cerca de 100 mil anos. Foi também nessa altura que o ser humano começou a desenvolver ferramentas de caça e a organizar plantações de alimentos. Com a evolução da espécie, surgiu a necessidade de haver uma forma de comunicar “comum”. Acredita-se que, antes deste progresso, a comunicação estava limitada a pequenos grupos ou, até mesmo, a famílias. O conhecimento daquilo que significa ser humano e como é que as culturas se desenvolveram ao longo do tempo assenta muito na linguagem.

Os idiomas antigos perdiam-se, geralmente, com a criação de novos. A este desenvolvimento os especialistas da linguagem dão o nome de “equilíbrio linguístico”. Como no caso do latim, por exemplo. Muitas pessoas têm a ideia que o latim é uma língua morta, mas, na verdade, o latim desenvolveu-se, dando origem a novos idiomas, como o português e o francês.

Contudo, este equilíbrio começou a desaparecer há 500 anos, deixando buracos negros na História da humanidade. As pessoas começaram a aprender as línguas dominantes – também conhecidas como línguas metropolitanas – e as gerações seguintes foram perdendo o contacto com a língua materna dos seus antepassados.

O que é que se passou? (E continua a passar)

A morte de uma língua torna-se oficial quando o último falante nativo morre, mesmo que existam registos ou pessoas que a falem como segunda língua. Este fenómeno acontece por variadas razões, que podem ir desde desastres naturais a economia.

  • Globalização e urbanização

Um falante de uma língua “menor” pode decidir ensinar às gerações seguintes uma língua com a qual tenham mais probabilidade de prosperar não só economicamente, mas também socialmente. Isto aconteceu muito nos EUA, por exemplo. As pequenas povoações começaram a urbanizar-se e o inglês foi se tornando, ao longo do tempo, a língua principal. Ou seja, começou a ser economicamente mais rentável falar inglês do que a língua materna. Estima-se que antes dos europeus chegarem à América existiam mais 1000 línguas indígenas do que hoje. O desaparecimento das línguas foi gradual, começando as populações por se tornarem bilingues e perdendo o contacto com a língua tradicional com o tempo.

  • Política e descriminação

Durante muitos anos, em vários países, foram criadas políticas de extermínio de pessoas indígenas. O objetivo primário era aglutinar estas culturas na cultura “principal”. O maior exemplo destas políticas foram as escolas residenciais canadianas. Os estabelecimentos de ensino foram criados com o objetivo de “kill the Indian in the child” que literalmente significa “matar os Índios nas crianças”. Este “matar” era interpretado no sentido figurativo de “acabar com a cultura”, no entanto, muitas crianças acabaram por falecer no processo. Políticas do género verificaram-se também em países como Austrália, EUA e até em alguns países da Europa.

  • Migração

Este fenómeno surge na sequência dos anteriores. A deslocação geográfica dos povos afeta também as capacidades intelectuais dos indivíduos. A procura por melhor qualidade de vida noutro local faz com que, com o passar do tempo, as novas gerações percam contacto com a língua dos seus antepassados.

  • Desastres naturais

Os lugares do mundo com maior diversidade linguística são também lugares muito vulneráveis ao acontecimento de desastres naturais. A Índia e a Indonésia somam mais de mil línguas indígenas juntas e são territórios frequentemente devastados por terramotos, tsunamis ou até mesmo tempestades. É comum não se ter bem a noção da perda linguística após um desastre natural, pois muitas das vezes o território ainda não tinha sido completamente explorado nesse sentido.

O que é que está a ser feito?

Existem vários projetos com o objetivo de manter vivos os idiomas e as culturas a eles associadas. 2019 foi intitulado pela UNESCO o Ano Internacional das Línguas Indígenas (IYIL2019) com o objetivo de alertar o mundo e sensibilizar as pessoas para a importância de começar a agir.

Documentar uma língua do zero é um processo muito demorado. Uns optam por escrever, outros por gravar, mas o ideal será documentar de todas as formas para que se possa entender toda a fonética, gramática, dicção e cosmovisão.

  • Marie Wilcox

Marie Wilcox é a última falante fluente de Wukchumni. Quando se apercebeu desse facto, começou a documentar tudo o que sabia sobre a língua e ensinou-a à filha e ao neto. Durante sete anos desenvolveu um dicionário Wukchumni-Inglês e hoje dedica-se a gravar histórias e contos em formato áudio. Juntamente com a filha, também ensina a sua língua materna a outras pessoas da povoação.

Esta é uma história de sucesso de revitalização de um idioma, mas, infelizmente, na maioria dos casos não é assim que acontece. Saami, por exemplo, é uma língua que se perdeu depois dos dois últimos falantes nativos falecerem durante o seu processo de documentação.

  • Wikitongues

Wikitongues é uma rede global com mais de mil voluntários. A missão da organização é garantir que toda a gente tem as ferramentas necessárias para passar a sua língua materna às gerações seguintes.

Além de estar a trabalhar diretamente com a UNESCO no decorrer do IYIL2019, tem outros projetos ativos: gravar uma história em todas as línguas do mundo e desenvolver um kit de sobrevivência para línguas, com as ferramentas necessárias para a sua documentação.

  • CoEDL

O Centre of Excellence for the Dynamics of Language (CoEDL) desenvolveu uma tecnologia que permite preservar idioma em vias de extinção. Depois de terem sido recolhidas mais de 40 mil horas de áudio e vídeo, os investigadores aperceberam-se que seriam precisos mais de 2 milhões de horas para conseguirem analisar todo o material.

Numa parceria com a Google, foi desenvolvida uma plataforma de inteligência artificial chamada TensorFlow, que cria modelos automaticamente. Esta tecnologia já desenvolveu 13 idiomas com o objetivo de facilitar o seu ensino através de jogos, aulas e histórias.

Estes são três entre muitos outros exemplos de projetos que têm vindo a ser desenvolvidos no âmbito do rejuvenescimento das línguas indígenas. A UNESCO espera que com estas parcerias se consiga criar um mundo onde as culturas se desenvolvem e não se perdem.

Também pode fazer a sua parte! Desde donativos, a partilhar a missão da UNESCO, ou até mesmo aprender uma língua indígena. Deixamos-lhe em baixo alguns websites onde pode deixar o seu contributo e aprender mais sobre esse mundo meio desconhecido da linguagem.

Website oficial do IYIL2019: https://en.iyil2019.org/

Website da Wikitongues: https://wikitongues.org/

 

Veja também o artigo “O que é que morre com o desaparecimento de um idioma?