O que têm em comum Camões, Mia Couto e Vinicius de Moraes?

O que têm em comum Camões, Mia Couto e Vinicius de Moraes?

Literatura-mundo em português

Desde Macau até São Tomé e Príncipe, existem centenas de autores cujo idioma principal é o português. Mas, apesar de partilharem a mesma língua, as diferentes culturas dos países lusófonos tornam cada uma das obras uma criação única.

Pensar na língua portuguesa como um meio de expressão em múltiplos espaços geográficos e culturas é um grande desafio. Embora tenham um meio de transmissão da mensagem comum, cada cultura tem a sua identidade única e influências vindas do espaço geográfico que a rodeia. A ideia de lusofonia pode trazer também à tona as questões de dominação que existiram nas colónias e no antigo império português. No entanto, a imposição histórica do sistema linguístico constituiu também um gesto emancipatório durante a independência das colónias.

Vários autores começaram a utilizar o conceito literatura-mundo para destacar o caráter transversal do fim das fronteiras e também para realçar a língua como um aspeto unificador da literatura.

“O português (língua) é uma das melhores coisas que os tugas nos deixaram, porque a língua não é a prova de nada mais senão um instrumento para os homens se relacionarem uns com os outros; é um instrumento, um meio para falar, para exprimir as realidades da vida e do mundo.” Amílcar Cabral

Portugal – Camões 

 

Como falar de literatura em português sem falar d’As armas e os barões assinalados?

Luís Vaz de Camões foi um nobre português do século XVI. A sua infância foi vivida na época das grandes descobertas marítimas e também no início do Classicismo em Portugal. Os seus versos eram apreciados pelas damas da corte em Lisboa. No entanto, durante muito tempo, foi perseguido por outros poetas que queriam desprestigiá-lo e afastá-lo da corte. Para fugir as estas perseguições, Camões embarcou como soldado para África. Foi então que, inspirado pelo mar desconhecido e pelas terras descobertas, escreveu ”Os Lusíadas”.

“Os Lusíadas” é um clássico da literatura portuguesa. Publicado em 1572 é um longo poema épico dedicado aos “feitos da famosa gente”, os portugueses. A expansão marítima de Portugal é um dos temas principais desta obra que homenageia o povo português por ultrapassar perigos e guerras, no intuito de ampliar o império e a fé.

Retrato de Luís Vaz de Camões

Angola – Pepetela

 

Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, conhecido pelo seu pseudónimo Pepetela (é a palavra em quimbundo para Pestana), é um dos maiores escritores angolanos da história. A prosa deste escritor, que tem hoje 77 anos, começou por ser tecida em frases curtas, com uma linguagem simples, para que os estudantes tivessem acesso a outros livros que não manuais escolares e para que os guerrilheiros tivessem livros para ler nas interrupções dos combates. Em 1997, venceu o Prémio Camões, que é atribuído a autores que tenham cooperado para o enriquecimento do património literário e cultural da língua portuguesa.

“As aventuras de Ngunga” é uma das suas obras mais famosas. Um romance que nasceu de um conjunto de textos didáticos. É uma história sobre a liberdade e a luta pela independência.

fotografia Pepetela

Moçambique – Mia Couto

 

António Emílio Leite Couto é biólogo de formação e também o autor moçambicano mais traduzido do mundo. Já lançou mais de 30 livros: desde prosa a poesia, passando por literatura infantil. Entre outros, venceu o Prémio Camões, em 2013, e foi ainda premiado internacionalmente, em 2014, com o Neustadt Prize, comparado muitas vezes com o Prémio Nobel da Literatura.

“Terra sonâmbula” é considerado um dos 10 melhores livros africanos do século XX. Este romance escrito em forma poética ganhou vários prémios e retrata o fim do colonialismo e a obtenção da independência.

Brasil – Vinicius de Moraes

 

Marcus Vinicius de Moraes foi não só escritor e poeta, mas também dramaturgo, jornalista, diplomata, cantor e compositor. “Garota de Ipanema” é quase um hino brasileiro, sendo a letra deste autor. Recebeu o Prémio Felipe D’Oliveira pelo livro “Forma e Exegese”.

“Soneto de Fidelidade” é uma das obras mais importantes da cultura brasileira. É um soneto escrito em 1939 e posteriormente publicado no livro “Sonetos e Baladas”, em 1946. O poema ganhou logo fama e até hoje é conhecido por embalar casais apaixonados.

retrato de Vinicius de Moraes

Macau – José dos Santos Ferreira

 

José Inocêncio dos Santos Ferreira foi escritor, fez parte da administração de uma escola e foi ainda professor de português em Hong Kong. Filho de pai português, foi um grande defensor do patuá macaense, a língua crioula da região, que deriva do português. A maioria das suas obras foi inteiramente escrita nessa variante de português. O Governo de Macau prestou-lhe homenagem e mandou erguer uma estátua num dos jardins da cidade. Da sua carreira deixou letras de músicas, poemas e peças de teatro. É considerado o último “académico” em patuá.

retrato de José dos Santos Ferreira

São Tomé e Príncipe – Olinda Beja

 

Maria Olinda Beja Martins Assunção nasceu em Guadalupe, mas viveu parte da sua vida em Portugal. Regressou à ilha de São Tomé e foi lá que despertou a curiosidade pela escrita. Tem poemas e contos traduzidos para espanhol, francês, inglês, mandarim, árabe e esperanto.

“O Chá do Príncipe” é um conjunto de contos ancestrais. É um livro cheio de mistérios e aventuras que nos leva, em prosa, numa longa viagem pelas paisagens paradisíacas de São Tomé e Príncipe.

Guiné-Bissau – Marcelino Marques de Barros

 

Marcelino Marques de Barros ficou conhecido como o primeiro autor guineense que documentou a diversidade cultural da Guiné-Bissau. Foi também o responsável pela documentação da literatura oral, contos populares e lendas.

A recolha destas histórias resultou no livro “Contos, Canções e Parábolas”, publicado em 1900. Além de contos populares, recolheu ainda as canções guineenses (em crioulo e noutras línguas da localidade onde vivia).

retrato de Marcelino Beja

Cabo Verde – Baltasar Lopes da Silva

 

Baltasar Lopes da Silva foi um escritor e poeta de Cabo Verde. Escreveu tanto em português como em crioulo. Foi um dos fundadores da revista “Claridade”, uma das mais importantes a nível literário. Para além da prosa e da poesia, escreveu sobre os diferentes crioulos de Cabo Verde para que a sua língua materna não se perdesse.

“Chiquinho”, a seu romance mais conhecido, é provavelmente a obra literária mais famosa do país e foi um marco na literatura cabo-verdiana.