O que é que morre com o desaparecimento de um idioma?

O que é que morre com o desaparecimento de um idioma?

Morre uma visão única do que significa ser humano e fazer parte do planeta Terra.

Cada idioma é uma chave para o conhecimento de uma cultura. Desde histórias da mitologia, à arte ou até mesmo padrões meteorológicos ou segredos medicinais, a partilha de uma cultura é essencial para o desenvolvimento do ser humano. Ao desaparecer uma língua, deixa de ser possível a partilha desses conhecimentos e da forma como um certo grupo de pessoas vê o mundo. Já parou para pensar por que é que celebramos o ano 2019 quando os chineses celebram 4717? E os judeus que já estão em 5779? Talvez existam outras culturas com anos diferentes ou algumas passagens de ano tenham sido esquecidas com o desaparecimento de outros idiomas.

Morrem histórias e conhecimento.

Os costumes e as tradições de cada cultura são essenciais para perceber a evolução do ser humano enquanto espécie. Em gronelandês, uma língua esquimó em vias de extinção, era comum existirem palavras muito longas para descrever ocasiões específicas. Tinham, por exemplo, muitas definições para os vários tipos de vento. Apesar de os linguistas estarem ativamente a tentar manter este idioma vivo, acredita-se que cerca de 30% do vocabulário já se tenha perdido.

``The wisdom of humanity is coded in language. Once a language dies, the knowledge dies with it.``
Lyle Campbell
Morrem os recursos locais para combater ameaças ambientais.

Parece um pouco dramático de mais, mas é verdade. Nancy Rivenburgh na Conferência da Associação Internacional de Intérpretes afirmou até que “A medicina perde a oportunidade de descobrir potenciais curas; os responsáveis pelo planeamento de meios e os governos nacionais perdem conhecimentos adquiridos em relação à gestão dos recursos marinhos e terrestres em ecossistemas mais frágeis”.

Poderão, por exemplo, existir plantas nunca documentadas, mas cujas caraterísticas certos povos conhecem. Sem uma forma de contacto e sem a compreensão do idioma e da cultura, a partilha destes conhecimentos torna-se impossível.

Há pessoas que perdem a língua materna.

Imagine que nunca mais conseguia exprimir-se na língua que sempre conheceu. Mais ninguém sabia falar o seu idioma e descrever o mundo com as mesmas palavras. Estranho, não é? Mais estranho ainda seria que lhe pedissem para escrever todo o vocabulário e gramática que conhece para que não se perdesse para sempre.

Infelizmente, muitas pessoas estiveram numa situação semelhante e a recuperação da língua quando se chega a esse ponto é praticamente impossível.

Marie Wilcox apercebeu-se que a sua língua materna estava a desaparecer, Wukchumni. É a última falante de fluente. Durante 7 anos dedicou-se a desenvolver um dicionário com o máximo de palavras que se conseguisse lembrar. Ensinou a língua à filha e ao neto e hoje dedicam-se a ensinar a outros habitantes da sua povoação. Esta é uma história de sucesso de revitalização de um idioma. Mas, infelizmente, na maioria dos casos não é assim que acontece. Saami, por exemplo, é uma língua que foi perdida depois dos dois últimos falantes nativos falecerem durante o processo de documentação da mesma.