As lições de tradução da Patrulha Pata

As lições de tradução da Patrulha Pata

Ser pai é descobrir novos mundos. Ter um filho trilingue é descobrir em três culturas.

A Patrulha Pata é o centro de interesse do meu filho. Por isso, tive de aprender os nomes dos cachorros e as suas façanhas… para salvar o dia.

Uma tradução literal da expressão idiomática original “save the day” prova do dinamismo das línguas, que acabará por se juntar ao já adotado “no final do dia”, que nada tem a ver com os fins de tarde, mas com “no final de contas”.

Assim conheço o Chase, o Rocky, o Zuma, o Marshall, o Rubble, a Skye e a Everest. Daí ter estranhado um dia ouvir o meu filho falar da Stella, do Marcus e do Ruben.

Uma investigação rápida permitiu descobrir que os nomes dos cães foram alterados na língua francesa.

Qual será o motivo para esta adaptação para uma língua específica?

A minha veia de tradutor e francófono inclina-se a dizer que é para facilitar a pronúncia dos nomes por parte das crianças. Marshall, Rubble e Skye são mais difíceis de pronunciar do que Stella, Marcus e Ruben para um francófono.

Ao adaptar os nomes à cultura, aos sons da língua das crianças reduz-se a estranheza. A familiaridade dos sons ajuda a uma maior identificação e adoção das personagens pelos mais pequenos. Desta forma, o produtor procura aumentar o sucesso do desenho animado e as vendas do respetivo merchandising.

O próprio nome da série varia consoante o país ou região geográfica.

Assim “Paw Patrol” no original foi traduzido literalmente como “Patrulha Pata” para Portugal, adaptado para dar uma sonoridade mais dinâmica para “Pat’Patrouille” em língua francesa.

Nestas duas línguas, foi escolhido manter a proximidade com o nome original. Noutras foi escolhido destacar a espécie das personagens através do adjetivo “canina”, assim no Brasil é a “Patrulha Canina” e, em Espanha, “La Patrulla Canina”. Já nos países de américa latina de língua espanhola, a escolha foi “Patrulla de Cachorros” semelhante ao nome dado em Itália “La squadra dei cuccioli”.

Aqui o destaque vai para o facto de serem cães jovens, o que ajuda à identificação por crianças. Também é um apelo afetivo. Quem não gosta de dar mimos a um cachorrinho?

O italiano foi mais longe e fez uma interpretação do original: “a equipa dos cachorros”.

Não existe uma tradução certa ou errada.

A equipa de marketing com ajuda do conhecimento cultural dos tradutores fez diferentes escolhas: manter próximo do original, destacar a espécie (canina) ou o tamanho (cachorro) dos animais ou até evitar o termo “patrulha” devido, eventualmente, à conotação policial ou militar negativa na américa latina ou ainda destacar o trabalho de equipa dos cachorros para o mercado italiano.

Esta adaptação linguística e cultural deve merecer o maior cuidado quando se comunica com pessoas de países, culturas diferentes.

A adequação à cultura local permite evitar qualquer sensação de estranheza ao ler, ouvir ou ver.

É preciso ter em atenção as conotações de determinadas palavras num país específico. Deve-se até verificar que as cores não ferem qualquer sensibilidade.

Todas as línguas estão pegadas de referências próprias de uma cultura nacional, regional ou setorial.

Um tradutor profissional identifica essas referências como as expressões idiomáticas e deve decidir como comunicar o que se pretende dizer tendo em conta as referências culturais dos leitores, sejam eles miúdos ou graúdos.

Só assim a mensagem passa e nada se perde na tradução.

Dinis Carvalho